De chuvas, cinzas, tempo curto e olhos castanhos.
Disso eu estou cheio.
Isso sou eu.
Disso fiz meu mundo.
Disso fiz meu fim e meu começo.
E quando chegou no meio
Eles se entreolharam e não viram outra saída…
Senão colidirem.
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Palidez ruborizada do teu rosto
Refletindo o sol em seu castanho avermelhado.
Meu tema favorito, sempre.
Sempre que a memória teima em voltar
Aquele inverno, que não vai mais voltar.
Que nunca mais se repetiu.
A não ser um ou dois enganos.
Entre uma ou outra baforada de cigarro.
Mas isso já é outra história.
O que me importa agora é teu velho riso.
Ofuscado agora pelo Cinza do Oregon…
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Sente as horas pesadas nos seus ombros.
Meia hora que passa atropelando.
Duas horas que caem sobre sua consciência
Te lembrando: Você está atrasado.
Aonde cabe o atraso
Quando se joga do abismo?
Quando aperta o gatilho?
Quando se atrasa o relógio?
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Cai o cinza, apesar do sol.
Nem um pouco tímido, queimando as costas.
Daqui a pouco derrama em água…
Pra voltar a ser cinza de novo.
A Água caiu do cinza
E então subindo em ondas trêmulas
pra ir buscar o azul.
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Fecha a porta, senta e escreve.
A porta abre, olha para trás…
O telefone toca… eu não atendo.
Entra gente apressada, acena com a cabeça.
Não fecha a porta atrás de si.
Eu fecho a porta… pra não entrar barulho.
Nego deixa a porta aberta pra passar o rabo
Ou pra caber o ego.
O vento ta acinzentando o céu de novo.
O velho espreguiça-se e boceja.
Passa a mão na careca…
O sol fechou a porta…
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Você abre a porta e os olhares se voltam a você.
Todos sem exceção.
Olhares por cima de monitores. Olhares atarefados.
O bom dia não vai vir.
Eles voltam seus olhares a seus monitores.
As mãos frenéticas aos teclados, dados precisam ser compilados
Bons dias precisam ser dados.
E os dados necessitam ser compilados.
Bom dia a todos.
Respiram aliviados
Normalidade enfim, formalidades cumpridas.
Voltemos aos dados.
Até chegar a hora de dar Boa tarde
Não mais que mera formalidade
Boa Formalidade a todos.
Voltem atarefados… Á compilação dos dados…
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Do meu mau humor da manhã, ao descaso de um merda qualquer.
Ô segunda feira. Não sei porque você tem que existir.
Dos meus sonhos vívidos do fim de semana, ás minhas horas confusas de sempre…
Palavra que foge. Divagação sem rumo.
Gente desinteressante que eu atraio… gente interessante que não me dá bola.
Desinteressante são eles talvez.
Contando no dedo o tempo que falta. Irritado com tudo.
“Quem foi que desenhou caralhinhos voadores no banheiro?”
E quando a gente começa a ver genialidade no chulo… ?
Quando era criança, sonhava em ter aquelas cadeiras de escritório.
Elas tinham rodinhas, giravam, eram macias e confortáveis.
Os Anos escolares doeram nas costas, cadeiras de madeira, duras.
Hoje, oito horas ou mais. Sentado numa cadeira de escritório. Macia e confortável.
Mas não há mais graça, não posso correr nem girar, ou me divertir.
A gente cresce pra quê mesmo?
Do que depende minha dependência?
De qual olhar? De qual voz?
Quão profundas são minhas raízes
Cravadas no coração alheio?
Detesto telefones. Só aumentam a saudade.
E deixam a orelha melando.
Celulares servem para seu chefe te encontrar mais fácil.
Na hora do almoço, do banho, ou do fax.
E ele ta lá tocando de novo.
O Gordinho que atende olha pra mim.
Tem alguma coisa no olhar dele que não me deixa confortável.
Alguém que te olha e parece te reprovar, te analisar, te incriminar.
Olhar profundo, escuro de olheiras. Lembra o meu.
Por isso que me dá medo.
Mas enquanto converso ao telefone eu rabisco.
Minha memória falha e olho os rabiscos pra me lembrar,
Uma curva, uma gargalhada, dois traços e uma confidência.
A voz dela desenhada ali.
Memória gravada no fundo do olho.
Fidelidade masculina é uma coisa complicada mesmo.
Tapinhas nas costas, brindes, abraços de bêbado.
Simbiose entre seres da mesma espécie com um interesse em comum.
Só uma mulher para acabar com esse comportamento.
Os dois fingem que não se importam, não vão atrapalhar um ao outro.
Nem tocam mais no assunto.
Todo César tem seu Brutus…
E a cada dia eu percebo que sensatez é artigo raro.
A sensatez de cada um cabe mesmo no seu próprio umbigo.Junto com fiapos de cobertor.Tem gente que entende de tudo, ou pelo menos finge entender
.“O que você precisa pra fazer isso funcionar?”
Eu preciso de muita coisa. Não é tão fácil quanto parece.
Tão fácil quanto o tempo parece estar passando.
É tão fácil falar do que não entende, fazer previsões em cima de fatos já previstos.
Depois do cataclisma, proliferam os profetas.
Depois do coração partido, proliferam os poetas.
Só pra rimar.
E o fim do mundo já tem data marcada… de novo.
Volto com uma idéia. Ando para ter idéias. Mas quando sento aqui elas somem.
Tem gente lá fora esperando que eu faça minha parte.
Eu to esperando valer a pena fazer minha parte.
Tem gente lá fora batendo o pé por alguma coisa.
Eu to aqui levantando meu pé, pra não pisar no barro e na merda.
O tempo lá fora anda esquisito, ta sol, mas não se sabe se vai esquentar.
Ta ventando e tem nuvens pretas no horizonte.Mas quem diz que chove?
A porta não faz mais barulho quando abre. Melhor assim.
Entre assumir o que se faz e esconder o mal escondido… o que é melhor?
Se tiver que morrer, que morra de preguiça.