Notes of Tralhas


Conto: A menina que foi e voltou

 Esse é mais um dos meus contos inacabados. Comecei a escrever no fértil ano de 2005, quatro pequenos capitulos. Mas a idéia amadurecida do mundo do pós vida (ou antes da vida) serviu para ambientar outra historia, “O andarilho” que tem algumas boas paginas já escritas. 

Julianne

 Prólogo:

“Você alguma vez sentiu, quando sozinho em teu quarto,que o escuro as vezes pode fazer parte de você?”Como se estivesse acordando, mas eu não lembro-me de ter adormecido.Aonde estou? Já vi esse lugar antes, com certeza,que sim…mas foi a tanto tempo,tanto que não acho possível estar aqui…aonde estou?
Não estou sozinha eu sei, mas não vejo ninguém ao meu lado…um corredor longo…paredes caiadas…um quadro e a luz que parece vir de uma janela aberta ao longe, aonde devo ir?
é meu rosto no quadro? Mas eu não sinto como se esse rosto ainda fosse meu…
Ouço cantigas de ninar vindas de algum lugar a minha frente…não sinto como se estivesse caminhando mas eu estou me movendo, sinto mus pés, meus dedos toarem o chão levemente vez ou outra, como se estivesse flutuando…eu já flutuei outras vezes eu bem me lembro mas como?A janela está realmente aberta…está um dia lindo, o sol brilha forte e aquece com carinho a relva…me deu vontade de sentar-me na grama e adormecer…mas não há mais medo aqui para me impedir, e…não sinto-me cansada.
O Carro! Está lá fora junto com meus pais, o que aconteceu?
Eu me lembro…da chuva, da estrada ruim, das curvas e muito medo..minha mãe apertando forte minha mão…o que aconteceu…- Julianne…

Esse foi meu nome, mas não sei ao certo se ainda sou Julianne…não consigo sentir medo apesar de querer, não sinto minhas lágrimas apesar de querer chorar…quem está chamando por mim?

- Julianne…está confusa, menininha….venha, segure minha mão, venha comigo…

Suas mãos são tão quentes…sua presença, eu posso sentir, mas não poso te ver…

- Posso aparecer como quiser pra você, minha princesa…assim está bom?
Eu já te vi antes, você é linda…eu já sabia disso ao ouvir a tua voz, aonde estou?

- Você está morta, Julianne…
Não posso estar, eu ainda existo eu estou pensando….
- e do você acha que se trata essa “existência”, Madame Lua…
Eu sei que fui madame lua um dia…mas como posso ter essas lembranças, e as de Julianne ao mesmo tempo?
-Você não foi você é…o tempo é invenção maligna do que o homem há de mais mesquinho..um algoz….
Não é Justo com Julianne que morra agora…ela é tão jovem e cheia de planos…eu quero retornar para fazer Julianne feliz…minha mãe! meu pai! minha irmã! como eles estão?
- Não se preocupe com eles…eles estão bem…o ciclo deles ainda não se rompeu…
Quero retornar, tem tantas coisa que eu não disse a eles, tanto amor para compartilhar…Julianne quer ter um filho, Julianne quer existir, viver até os 90 anos…
- Julianne não poderia, Madame Lua…esse é o plano dele para ela..
Dele? Deus? há um deus?
- Não fale assim…não com esse tom em sua voz, não sinta emoções aqui…tornará as coisas mais difíceis pra você e seus futuros ciclos…
Eu não me importo..quero voltar a ser Julianne…
- Não é possível…
Agora me diga você o que é impossível…

- Você está nos magoando, Madame Lua…você já esteve aqui antes, só não se lembra. Confesso que sinto por ter tirado Julianne da malha da vida, mas assim ele o quis…não o Deus onipresente das crenças da cruz..mas o deus que planeja e que ama…
Que tipo de jogo sádico esse Deus pratica…Leliana?
- Lembrou-se de quem sou…logo todas as suas mais antigas lembranças retornarão a você…você vai rir dessa agressividade….se há um sentimento que possa ser cultivado aqui, menininha, esse sentimento é o amor puro e a felicidade…
Não fui um anjo em vida Leliana, como posso estar aqui me cumprimentando por ter deixado tamanha lacuna na vida daqueles a quem eu amo?
- Bem e mal não existem, somente o equilíbrio e o teu equilíbrio é comparado ao Dele…você viveu e morreu por tantas vezes…não admira que tenha se apegado tanto ao corpo, a carne, aos prazeres e dores…Madame Lua foi uma prostituta em Budapeste, Julianne uma colegial introspectiva que sabia que morreria jovem…Julianne sabia do destino pois madame lua sussurrou a ela antes de partir, essa memória você quis guardar…para tornar o jogo mais interessante…você manipula seu destino assim como Ele…você sempre participa do jogo a que considera sádico..
Não posso negar isso, Leliana…mas tinha algo em Julianne que eu não podia deixar incompleto…quero voltar a ser Julianne…ouça, eles estão me chamando de volta, eu posso voltar

- Não largue minha mão…se você voltar…nada será como antes pra Julianne
Eu não me importo com isso….é um jogo, você mesma me indicou ao meu sadismo…quero retornar antes que recobre por completo meu apego a esse lugar, a esse calor, a esse conforto…
- Olhe para a janela Julianne…olhe para o sol lá fora…venha comigo por favor…
Você me chamou de Julianne…veja…então posso ser Julianne novamente…

- Você escolheu assim….e retornará um dia…eu estarei aqui pra você Julianne…estarei aqui para secar as lágrimas que plantou para ela…e para mais quem cruzar o caminho de Julianne…
Obrigada Leliana..porque não volta comigo…o tempo mudou….o mundo mudou…
- Mas ainda há fogo….

Leliana? Leliana?
Aonde você está, irmãzinha?

Ela se foi e sinto frio…sinto medo…sinto como se fosse Julianne novamente…

Aonde estou?
Essa porta a minha frente…

“Doutor…venha rápido…o pulso está ficando mais forte…”

Tantas pessoas a minha volta…sinto-me fraca….minha consciência parece pender, parece que vou desaparecer…quem é essa menina sentada no canto do quarto? Você pode me ver? Sim você pode…pode me ouvir…sim você pode…

Não se vá….fique comigo…não…não tire de mim esse cordão…sem ele não poderei mais voltar para…

sou Julianne…tenho quinze anos…e sei de algo sussurrado a mim antes de eu nascer…

[Julianne II]

 A consiencia da morte…seria um prêmio? uma dádiva?
Todos nós sabemos que morreremos um dia…mas…realmente pensamos sobre isso, durante o tempo em que permanecemos…vivos?
Devagar…tudo o que conhecemos fica para trás…até que só nos restam lembranças…ecos na memória…pinturas em preto e branco, na grande lacuna que se forma, com a morte de quem é importante para nós…
O que restará no fim?

- é um milagre que ainda esteja viva…
- eu ainda não acredito…se não tivesse visto com meus próprios olhos…
- deus…ela foi arremessada para fora do carro com o impacto…
Algumas palavras ferem…alguns olhares insultam…mas o que conta é o que se sabe….- fique quieta, Madalena…os pais estão no quarto, eles podem te ouvir…
- desculpe…mas….estou impressionada até agora…se eu parar pra pensar no que aconteceu…eu me arrepio…
- Sim…mas eu não sei o que acontecerá com a pobre garota se acordar…seu cérebro ficou muto tempo sem oxigênio…
- é uma pena…tão jovm..tão linda…
-Deus quis assim…
Nunca parou pra pensar…que esse Deus….não é o bastante?- Mãe?
- Sim…Arianne?

Os braços nos ombros, sempre que precisei de apoio…os dedos afagam as costas…mas o que importa é o que se sente…o conforto e o calor…algumas coisas nos são ditas….outras…sussurradas…

- A senhora não quer ir para casa dormir? Já está ao lado de Julianne a dias…
- Não Arianne…eu quero estar aqui…quando ela acordar…

Compaixão… o medo da certeza…a frágil esperança…o nunca tão próximo e mesmo assim…

- Mãe, a senhora precisa saber da opinião dos médicos…eles acham que Julianne nunca mais será a mesma pessoa…ela ficou muito tempo sem oxigenio no cerebro…eles não sabem a extensão das sequelas…eles sequer podem dizer se…Julianne irá acordar…
- Olhe para ela, Arianne… els parece tão bem…está tão corada…é como se dormisse…você conhece a expressão de anjo de sua irmã quando dorme…admiramos isso desde que ela nasceu…eu sinto essa paz que Julie sempre nos irradiou…

O sorriso é quase de deboche, a pena…as lagrimas contidas…minha irmã não se dá ao luxo de sonhar…se eu…se eu pudesse ao menos abrir…

meus olhos…

- Sim mamãe…eu entendo…afinal…um milagre já foi operado aqui, não é mesmo…?

Que milagre aconteceu?
Já ouvi essa palavra tantas vezes, desde que…o que aconteceu comigo?

- A vontade de deus é um mistério, Arianne…mas sempre age para o bem…essa é a certeza que faz do mundo um lugar suportável, minha filha…

“Você pode acordar se quiser, Julianne”
Como poderia, Leliana…você ouviu as enfermeiras…você ouviu minha irmã…os médicos não sabem sequer se irei acordar…
“Se você assim decidir assim será…você está deixando de ser Julianne novamente…o que foi? mudou de idéia tão rapido..”
Eu já não tenho certezas….
“Certezas não existem…”
Uma voz que não posso dizer de quem é…uma menina ajoelhada no canto do quarto…cabelos ruivos..olhos verdes…uma eterna expressão de bondade e ao mesmo tempo…de sofrimento…há bondade sem sofrimento? Há graça sem provação?

“Abra seus olhos, Julianne….devagar…venha…venha para onde estou…”

- Quem é você?…
No momento em que acordei…brilhava no quarto onde estava uma luz intensa, poderia ser fria em seu interior, mas suas bordas eram quentes..brilhava em um tom negro…muio estranho, como em cores que nunca vi em minha vida…minha irmã e minha mãe me olhavam assustada, eu sentia-me cansada…mas minha mente stava aguçada…eu tinha memórias de um tempo que não podia contar…mas naquele momento estava feliz, por somente poder ver minha mãe e minha irmã novamente…não tinha idéia de onde estava, nem do que havia acontecido…só sentia felicidades e saudades…e sentia-me forte…queria gritar…queria existir…

- Porque me olham assim? Mãe? Arianne?…aonde estou?
- eu….eu ….vou chamar o médico…
Nesse momento,minha mãe, em silêncio e com os olhos tomados por lágrimas me abraçou…e eram como se suas lágrimas me aquecessem de um frio…que sentira por séculos…era amor…
Em poucos instantes o quarto estava tomado por muitas pessoas vestidas de branco…eu estava em um hostpital…após alguns segundos de silêncio…um senhor se aproximou de mim, tomou meu pulso, boquiaberto, olhou para os demais, e, ajeitando um grosso par de oculos perguntou-me:
- Como se sente, Julianne…
Eu não pude pensar em mais nada pra dizer além de:
- Estou com fome…parece que não como há seculos… 

[Julianne III]

As pessoas têm olhado para mim como se eu fosse uma aberração…estou sendo mantida internada nesse hospital em “observação”e isso já vão cinco dias, desde que acordei.
Já perdi a conta de quantas tomografias eu tive que fazer e inúmeros exames, testes psicológicos, testes de reflexo, como esse, que o Amável doutor Seixas está fazendo em mim agora…
- Olhe para essa luz em minhas mãos, Julianne, quero que a siga, mas somente com os olhos.
Fiz o que me pediu com dedicação, mesmo que achasse aquilo dispensável, eu me sentia muito bem desde que acordei, vinha dormindo bem, apesar dos inúmeros eletrodos que colocavam em minha cabeça para monitorar meu sono…desconfio que queiram até mesmo…monitorar meus sonhos…
- Doutor Seixas – eu disse – posso lhe fazer uma pergunta?
Ele se assustou um pouco, recolheu, junto ao corpo, a mão que segurava a lanterninha, depois como era de seu costume, ajeitou os óculos em seus olhos e disse amavelmente, como também era de seu costume:
- Claro, Julianne, pode fazer…
Talvez eu tivesse medo da resposta, mas ao mesmo tempo havia uma estranha certeza de que não havia nada de errado comigo
- Há algo de errado comigo?
Ele deu de ombros, fez uma cara engraçada de negativa, voltou a ajeitar os óculos, virou-se para sua mesa, e passou a digitar em seu computador…
Muitas coisas passavam pela minha cabeça naquele momento, a confusão inicial havia passado, mas havia o incomodo da lacuna, do tempo que fiquei desacordada, e eu não sabia sequer quanto tempo havia passado, desde o acidente na estrada até o dia que abri meus olhos diante de uma platéia de médicos assustados… o que havia de errado em estar viva?
- É como se eu não pudesse estar tão boa, é como se fosse um crime eu poder andar sozinha pelo hospital, pedir para tomar um ar no jardim, implorar por um pedaço de Pizza…eu sou a mesma pessoa que sempre fui, mas mesmo minha família parece agir como se isso fosse durar pouco…estou assustada, doutor…por favor me diga se há algo de errado comigo…
Havia pena no olhar do médico…ele era bem novo, talvez oito anos mais velho do que eu, parecia em duvida, entre meus laudos perfeitamente bons, e a impossibilidade do fato de eu estar viva…ele também parecia em conflito consigo mesmo…
- Julianne…eu vou ser bem sincero com você…nós estamos tentando achar uma brecha no seu quadro clínico inicial, que explique a sua recuperação…é…praticamente impossível que em duas semanas apenas você tenha se recuperado..
- Como cheguei aqui doutor?
Novo suspiro, ele tirou seus óculos.
- O quadro mais complicado que eu já vi, menina… você foi arremessada para fora do carro com o impacto…um impacto direto a 120 quilômetros por hora com um carro em direção contrária…isso é muito forte, é muita energia…- ele gesticulava, simulando o impacto com as mãos – seus familiares não tiveram muitas lesões, o mais grave foi seu pai, que quebrou uma costela e a perna esquerda, mas você…
- O que eu tinha, doutor?
Parecia difícil para ele dizer aquilo…talvez, a menina saudável que ele via a sua frente, em nada lhe lembrava daquela pessoa que deu entrada em seu plantão, duas semanas antes
- Você sofreu traumatismo craniano…quebrou uma vértebra…teve hemorragia no tórax, por conta de um pulmão perfurado por uma costela que se quebrou…te salvamos por pouco…já tínhamos te perdido…porém…você respondeu, mesmo que tardiamente ao desfibrilador…mas não tínhamos esperanças em ver você como esta agora…é impossível…você não teve seqüelas…seqüela alguma…por isso achamos que talvez…seja temporário…porque…você…deveria estar morta…
Eu deveria estar morta… mas…
- Mas eu não me sinto como se devesse…
Ele pareceu não ter ouvido a minha frase, permaneceu sentado a distancia da cama onde eu estava sentada, balançando meus pés em seu vazio como se fosse uma criança…nesse momento, uma enfermeira entrou no quarto, dizendo que estava tudo pronto para uma nova tomografia…

Carta do doutor Luis Henrique Seixas a sua esposa, Sarah:

“Sarah…há quanto tempo você me conhece? Você alguma vez me viu em duvidas quanto a profissão que deveria seguir?
Como meu pai sempre disse, a quem quisesse ouvir, a medicina estava em meus genes, e que eu driblaria todas as dificuldades para atingir meus objetivos, salvar vidas e conseqüentemente subir na vida…e que nem a emergência do maior hospital da América latina poderia tirar de minha carreira o brilho que fora lapidado desde a infância…
Você se lembra quando a um ano atrás eu perdi meu primeiro paciente? Era um senhor de meia idade, que infartou, eu lembro de seus olhinhos numa expressão de dor na minha maca, implorando para que eu o salvasse…você se lembra do que eu disse quando cheguei em casa aquele dia?
Parecia um bobo, uma criança em prantos dizendo que sentia-me impotente, que eu não poderia salvar ninguém, e que se haveria um deus…esse deus estava contra mim..
Pois bem Sarah…há duas semanas eu perdi minha segunda paciente…seu nome é Julianne…é uma garota de…quinze anos…parece um anjo…o primeiro sentimento que tive ao vê-la no estado em que deu entrada foi desgosto…anjos não deveriam sofrer…ela lembra muito a sua irmã Natália… loira…muito branca, olhos da cor de amêndoas tão claros…ela sofrera um gravíssimo acidente de carro…essas estradas em péssimo estado a chuva que fazia naquela quinta feira, você lembra? Ela deu entrada com toda a sua família, o pai cm uma costela quebrada e uma fratura exposta na perna esquerda, a mãe e a irmã sofreram apenas ferimentos leves, mas Julianne estava a beira da morte…com hemorragia e traumatismo craniano…um exame rápido e constatei uma vértebra quebrada, a segunda… mesmo se sobrevivesse, ficaria paralítica… conseguimos conter a hemorragia, e rapidamente tratamos de imobilizar sua coluna, mas quando preparávamos para levar a sala de cirurgia, Julianne teve uma parada Cardio- respiratória… tentamos por mais de dez minutos traze-la de volta… em vão… eu ouvi petrificado a voz da enfermeira chefe dizendo a hora do óbito… eram onze e cinqüenta e oito da noite, de uma noite chuvosa de quinta-feira…
Eu fui para a salinha dos médicos, deitei-me no chão frio…eu estava em choque…sujo do sangue daquela linda menina que não teria mais chances de viver… Julianne estava morta.
Eu constatei isso…não havia pulso, não haviam reflexos, não havia atividade cerebral…ela estava arroxeada, o sangue não circulava…eu constatei isso…com minhas próprias mãos com meus próprios olhos…com meus sentidos e toda a bagagem acadêmica que tenho…eu sei constatar um óbito…não havia erros…
Mas…algum tempo depois….uma enfermeira bateu a porta da salinha com afobação, quando abri ela disse pra eu ir rápido, porque a menina estava reagindo…quando ela disse isso, eu pensei se tratar de Arianne, irmã de Julianne que talvez poderia ter reagido mal a anestesia aplicada para dar os pontos em sua testa…mas quando entrei naquela sala…eu não soube como reagir… ouvia o coração batendo acelerado…seu corpo estava em convulsão…e tratava-se de Julianne…a menina que eu vi morrer…conseguimos controlar as convulsões..e estabilizar seu quadro…a equipe toda ficou em silêncio e observou seu corpo com vida novamente…corada…como se acabara de nascer…
Mas mesmo que Julianne sobrevivesse, nós não poderíamos prever as seqüelas do tempo em que seu cérebro ficou sem oxigênio… foi muito tempo…e para o nosso espanto, Sarah, Duas semanas após eu constatar sua morte, a garota acordou no quarto 22 bem e consciente… e sentindo apenas fome…
Se deus esta brincando comigo eu não sei…se eu estou ficando maluco, então trata-se de histeria coletiva, pois toda minha equipe constatou o mesmo que eu naquela quinta feira chuvosa…
Falei com papai hoje pela manhã…disse todo o acontecido, mas ele apenas riu de mim e disse que havia sido um erro, que é comum que os paramédicos tirassem conclusões precipitadas ante a um caso de acidente, ele próprio já havia passado por algo semelhante..era um erro e nada mais…quanto a menina estar bem, papai disse que eu deveria estar feliz, pois um milagre havia sido operado no meu hospital…
É tão fácil assim aceitar? Sarah…Julianne estava Morta…morreu em minhas mãos e permaneceu morta por quarenta e dois minutos… me explique o que aocnteceu… pois eu não quero acreditar nesse deus que prega peças…
Não durmo bem há dias…acho que não raciocino mais direito…ah e sabe o que Julianne disse a mim hoje a tarde, após um exame?
Ela disse com uma inocência na voz que não a deixa mentir…ela disse que não sentia que deveria estar morta… me diga Sarah…em que acreditar?”

[ Julianne IV ]

“O nevoeiro da manhã…esmorece em luz do dia…tempo de acordar…o veio da morte finalmente se rompeu…e olhe só…a garotinha voltou”Acordada assustada naquela noite, alguém parecia sussurrar essas palavras em meu ouvido…um versinho irritante, mas que ao mesmo tempo, trazia-me uma estranha sensação de bem estar…a cada vez que ouvia as palavras sussurradas, eu sentia vontade de completar
- É verdade….eu voltei…
Naquela noite, uma noite quente, com cheiro e sabor de um verão que tardara em chegar.
Eu deitei-me de costas, coloquei meus braços atrás da cabeça, suspirei. Senti o ar enchendo meus pulmões…
“… teve hemorragia no tórax, por conta de um pulmão perfurado por uma costela que se quebrou…”

Tive um inicio de pânico, levei minha mão ao peito, respirei fundo…nada sentia, tateei minhas costelas, nada senti… fiquei atenta por alguns instantes, tentando notar algum sinal de dor em meu corpo, mas a única coisa que sentia naquele momento, era a certeza, de que não deveria estar morta.
“Posso jogar dados a noite toda por você minha querida, e mesmo assim, em nenhum giro de meus dedos você será maltratada… por dor alguma…”

A voz ecoava pelo quarto, por minha cabeça. Intrigada eu levantei-me nas pontas dos pés…o chão estava frio…

“…quebrou uma vértebra…”

Quedei-me por alguns instantes…eu podia andar…eu sentia minhas pernas…caminhei até chegar ao corredor, vazio. Naquela seção do Hospital ficavam os pacientes que se recuperavam de cirurgias, e muitos pacientes em estado vegetativo, em coma… eu sentia ali um vazio…e ao mesmo tempo, a sensação de estar em uma gaiola, com minhas asas podadas…

“Sem esperanças para eles até que se decidam…você sabe, Madame lua…”

Aquele nome não me era estranho…senti um turbilhão de vozes, de sentimentos, que por um segundo pareceram atingir meu coração, perdi o equilíbrio, e encostei-me na parede.
Fiquei com receio de alguém me ver daquele jeito, e me apressei em entrar em meu quarto.
Não queria que pensassem que eu estava tendo uma recaída, no fundo eu tinha medo de que eu pudesse a qualquer momento entrar em colapso, e tomar meu lugar no cemitério, como sugeriu o Doutor Seixas.
Mas quando entrei no quarto 22…havia mais alguém lá…e ao mesmo tempo…tive certeza de o quarto estar vazio…
Era um homem… um rapaz… vestido com roupas antigas… um paletó empoeirado, a cor sugeria marrom, mas não poderia precisar… seu rosto pálido era incrivelmente belo, olhos vazios, acinzentados, tao profundos que amarguravam…era magro, alto..cabelos compridos a na altura do pescoço, escorridos em seu rosto. Estava sentado na janela, com os pés balançando para fora do parapeito, as mãos, como uma criança travessa, postas ao lado do corpo, espalmadas… tive medo por ele, poderia cair dali…o prédio não era alto, mas ele poderia se machucar se caísse…
- Bela Julianne – disse ele, sua voz era algo como uma batida em uma parede oca… opaca.
- quem é você…como entrou aqui sem eu ter te visto?
Ele esboçou um sorriso…manteve-se na mesma posição
- Eu já estava aqui…
- Já ouvi tua voz antes…
- Sim, e já me viu também…só não quer se lembrar.
Deitei-me na cama, de lado, observando seu sorriso iluminado pela luz de uma lua majestosa, o luar parecia transparece-lo… era intrigante
- Porque não volta a dormir? Teremos tanto tempo para conversar quando sair daqui…
- Quando vou sair?
- Brevemente…
Não disse mais nada, somente me deixei dominar pelo sono, embalada por aquela voz seca, mas ao mesmo tempo piedosa, que me dizia outro versinho:

“Que melhor conforto encontrará… do que as serpentes em meus braços” 
 


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Julianne by
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Uma bela estória, como as demais que já escreveu e que tive a grata permissão para ler, espero que a continue e que tenha confiança que pode, pois você pode e tem muito talento para tal.
Quero conhecer o final dessa estória, como também das demais que vc tem e nas que acredito que ainda surgirão.
Valeu!!!

Comentário por Ben Hur




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