18:10 – Acabara de Anoitecer
- Meu nome é Marie Lilly… qual o seu?
Nenhuma resposta.
- Estou aqui de boa fé. Diga-me seu nome, quero te ajudar.
Ouviu-se um pequeno estalo ao longe, como se alguém pisasse num graveto. Alguns segundos depois uma voz abafada:
- Eu sou a larva.
A pequena Lilian abraçou-se a mãe, sentadas no sofá em frente a Marie, ambas apreensivas. Lilian reconhecia aquela voz, era a mesma que a atormentava desde que era pequena.
- Quem é você? – continuou Marie
- Eu sou a Larva.
Marie parou pensativa por alguns instantes. Lilian se escondia entre os braços gordinhos de sua mãe, começava a chorar.
- Você é a Larva?
- Eu sou a Larva – respondeu a voz dessa vez mais alta e rouca. Marie esboçou um sorriso.
- Por favor, – gritou Lilian aos prantos – pare! Eu não agüento ouvir essa voz.
- Acalme-se Lilian. – disse Marie com em um tom apaziguador, depois continuou - Larva.. porque não se mostra? O que esta escondendo?
- Eu sou a Larva.
Percebendo que o que quer que fosse aquela entidade, não ia dizer nada além daquilo, e sabendo que essa frase provocava pavor na pequena Lilian, Marie resolveu parar por ali. Sentou-se numa poltrona em frente a Lilian e sua mãe. Fechou os olhos, concentrou-se na menina, que pouco tempo depois parou de chorar.
- Pronto Lilian. Ela foi embora.
A menina devagar abriu os olhos, olhou ao redor, ainda abraçando forte sua mãe.
- p… Pra sempre?
Marie sentiu muita pena da pequena menina, mas não podia mentir.
- Infelizmente não Lilian. Eu pedi para ela ir embora só para que pudéssemos conversar.
- Eu não entendo Senhorita Lilly… eu não ouço nada…
- Tudo bem dona Maria… eu só peço para acreditar em mim e em tua filha. O que ela te conta é real.
- Sim.. eu não duvido. Minha avó contava a mesma historia de Lilian. Esse… essa… essa coisa a atormentou a vida inteira.
- A quanto tempo isso acontece Lilian?
Lilian recuou um pouco, parecia que não ia falar mas por fim disse:
- Eu tinha sete anos quando a vi pela primeira vez…
- Então você a vê?
- Sim…ela é feia… muito feia… tem uma cara triste que chega a dar pena, mãe…mas eu sinto mais medo do que pena… os olhos dela são pretos…os cabelos também… a boca dela é toda bagunçada…faltam alguns dentes e dentro da boca dela…. eu não sei o que é..parece que tem um monte de mosca ou abelha…
Marie franzia a testa, Aquela descrição era incomum para casos como esse. Espíritos assim eram comuns na fantasia popular, mas na verdade, por mais seqüelas residuais que trouxessem, nunca aparentavam ser tão monstruosos.
- Você tem certeza disso, Lilian?
- Eu acho que sim senhorita Lilly – disse a mãe – minha avó fazia a mesma descrição.
- Quanto ao rosto dela, você a reconhece? Ou sua avó alguma vez comentou se a reconhecia, dona Maria?
- Nunca… ela na verdade evitava falar dessa menina… passou por louca muitas vezes.
- Então é uma menina, Lilian? Pequena?
Lilian fez que sim com a cabeça.
- Normalmente… espíritos de crianças acabam ficando mais confusos. Não recobram a consciência do mundo de lá quando partem. Não superam o trauma.
A facilidade a calma com Marie lhes explicava trazia calma para as duas.
- Senhorita Lilly obrigada pela ajuda.
Marie retribuiu com um sorriso.
23:30 Daquela mesma noite.
Marie resolveu passar a noite na casa de Lilian e Maria, sabia que a “Larva” iria fazer outra aparição, Marie na verdade não havia pedido para ela ir embora, mas sim enviado a ela uma mensagem provocativa, que fez com que o espírito recuasse. Ela sabia que ela voltaria quando Lilian adormecesse, e voltaria com mais vontade e mais intensidade. Ao contrario do que acontece na maioria das vezes em que faz contato, dessa vez Marie não conseguia sentir a “impressão residual” deixada pela entidade. Quando se locomovem no espaço físico, espíritos deixam impressões que podem ser sentidas por pessoas mais sensíveis como Marie. Era um caso novo, uma entidade que parecia ser antiga, e ter a mente completamente corrompida, a ponto de deformar-se. A verdadeira personificação da assombração clássica.
Marie não pode deixar de sorrir. Estava na cozinha, de braços cruzados, em pé ao lado da porta, tomando uma xícara de Café. Dona Maria percebeu o sorriso de Marie, intrigou-se:
- Como pode estar tão calma, senhorita Lilly.. eu no seu lugar estaria com os nervos a flor da pele – disse a mulher, negra tinha quarenta e cinco anos.
- A gente acaba se acostumando, Dona Maria. E como sempre fui uma pessoa extremamente curiosa… esses casos sempre acabam me excitando.
– Que mal essa coisa pode fazer a minha filha?
- Nenhum – disse Marie, enquanto tomava um gole – Nenhum mal maior do que o que já está causando.
Dona Maria juntou as mãos um gesto que denotava fé e sua devoção materna. Levantou-se da cadeira que ocupava, dirigiu-se até seu quarto. Era uma casa simples, com poucos cômodos. Bastante antiga e apesar disso, Marie não podia sentir ali qualquer traço de atividade espiritual. Atribuía isso a fé que Dona Maria tinha e talvez… a presença da tal Larva.
Dona Maria voltava, trazendo em mãos uma folha de papel amarelada. Entregou a Marie.
Era um poema.Caligrafia caprichada, cada letra parecia ter sido desenhada com paixão.
“Estou aqui, só como sempre estive.
E tudo o que posso ouvir, daqui até o amanhecer é o silêncio.
O sol é tudo o que eu quero. A brisa, o que eu espero.
Cheiro do orvalho e o calor do teu toque
Todas tuas notas, o amanhecer ao piano.
Até o sol se por.”
- É um belo poema, dona Maria… quem o escreveu?
- Está na família há muito tempo, Senhorita Lilly. Nós não sabemos quem escreveu… minha avó recebeu da avó dela… e… está com Lilian desde que minha avó morreu.
Marie releu a carta, com mais atenção, e tentando visualizar seu conteúdo. Uma menina de cabelos pretos.. sedosos, compridos. Sentada numa velha cadeira de madeira num quarto pequeno. Paredes de barro…a luz do sol entrava por algumas pequenas frestas na parede. Era a única luz que entrava no quarto.
- Senhorita Lilly?
Marie levantou os olhos do papel
- Dona Maria… acredito que esse poema foi escrito por ela… a Larva.
Dona Maria voltava a sentar-se. Pensativa.
- O que ela quer dizer com “Eu sou a larva?”
- Não faço idéia… talvez uma metáfora sobre ainda não ter se tornado o que deveria ser… ou… sobre a forma com que morreu… é difícil precisar… a mente dela está completamente corrompida.
- Deus ajude minha menininha….
Disse Dona Maria, enquanto começava a rezar.
- Ele faz o que pode. – Sussurrou Marie.
02:10 da manhã
Marie observava a pequena Lilian dormir. Mesmo adormecida, a menina tinha o semblante pesado, a testa franzida. Dormia preocupada. Um quarto simples… a cama, um guarda guarda-roupas antigo. Bonecas estavam arrumadas cuidadosamente sobre uma penteadeira no outro canto do quarto. Na parede desenhos em folhas coloridas, feitos pela menina.
O Quarto era inundado pela luz pálida da lua, que entrava por algumas frestas na janela, dando ao ambiente uma atmosfera calma, pacifica. Marie não conseguia sentir nenhum traço de qualquer atividade espiritual. Fosse ela residual ou não.
Marie bocejou, espreguiçou-se, encolheu-se de frio em seu casaco. Em pouco tempo estava cochilando.Não soube precisar quanto tempo esteve dormindo, acordou de súbito, com a nítida impressão de que estava sendo observada. Uma névoa azulada inundava o quarto, Lilian em sua cama estava com os olhos arregalados, a expressão congelada de medo. Apontava um dos cantos do quarto.
Marie antes de levar seu olhar para onde a menina apontava, fechou os olhos e procurou mentalizar a imagem da menina sentada no quarto de barro, que imaginara antes, ao ler o poema,quando abriu seus olhos… percebeu um pequeno vulto bem próximo a ela, olhando-a diretamente em seus olhos.
- Eu… sou a Larva.
Tudo está tão calmo. O Céu é azul até onde a vista alcança, não há nuvens. Alguns passos de si, Marie avistava uma casinha de barro, bem simples. Ao lado da casa uma arvore seca, os galhos bifurcados pendiam em direção à casinha, assemelhando-se a garras. Em um dos galhos, girando lentamente a brisa agradável daquela tarde, pendia o corpo de um homem enforcado. As mãos atadas. No rosto a expressão de dor, congelada eternamente.
- Pobre homem. – exclamou Marie, as mãos ao peito. Sentiu pena.
- Sim…pobre de mim. – disse o homem, a voz parecia fazer força para sair. Um tom esganiçado, assustador.
Marie não se assustou, embora tenha se surpreendido um pouco.
- Quem fez isso contigo? Por quê?
O homem respondeu, enquanto girava a mercê do vento:
- Foi culpa dela… ela está La dentro da casa agora… choramingando a minha partida…
Parava de falar enquanto o vento o fazia dar as costas para Marie.
- Quem é ela?
- Eu a tomei como esposa… mas…ela é muito nova… não serve…não dá… mas o pai dela me devia… era o mínimo que poderia me oferecer…. eu ia esperar que ela crescesse… mas a menina…maliciosa…
Marie já entendera o que havia acontecido. Não ia questionar o homem, mas ele chorava compulsivamente.
- Eu não a violentei! Eu não a violentei! Eu não a violentei!… eu não fiz nada… eu a respeito… eu a respeito!!…
Então ele se calou, e voltava a pender, sem vida, ao sabor do vento.
Marie aproximou-se da pequena casinha de barro. A porta de madeira, em duas folhas. Somente a parte inferior estava fechada. Quando Marie apoiou-se na porta para checar o interior da casa, deu de cara com uma senhora negra, sentada a uma pesada mesa de madeira, cascando batatas. Cantarolava o que parecia ser um hino de louvor.
- Posso…entrar? – perguntou educadamente Marie.
A velha fez que sim com a cabeça, sem tirar seus olhos de sua tarefa ou parar de cantarolar.
- Senhora… procuro pela menina…
- Sinhazinha tá no quarto…. num qué sabê de cumê ou de bebê, nem de ir no terrêro vê o sór. Ta ansim desde que o Sinhozinho morreu, ele ta balangando lá fora…vosmecê já deve de ter avistado. – disse a velha com seu sotaque antigo. Ainda sem tirar os olhos das batatas.
- Foi ela que mandou matar o homem?
- Mas vosmecê num mi fala um negocio desse, minha fia… a sinhazinha pode di sê minininha… mas ela se perde de amor pelo sinhozinho… e ele tava arrespeitando ela…num bulia com ela di noite…nem durmia no memo leito. Mas vosmecê sabe cumé a mardade dessa gente… tudo gente simpres… caipira que nem eu… mas eu fui criada diferente dessa gente…fui criada cum Jisuis no meu coração… esse povo besta não sabe di rezar um pai nosso… ai ai
Terminava de falar, suspirava, levantava-se com muito custo da sua cadeira, levava as mãos as costas, praguejava de dor.
- Se vosmecê me dá licença… vô ali no terrero modi di pegá um frango pra fazê o armoço… se quisé tentá falá com a sinhazinha pode i… mas eu acho que ela num vai dexá vosmecê entrá no quarto….
A velha negra desapareceu no momento em que abriu a porta. Marie estava confusa. Não era a primeira vez que fora arremessada para dentro de uma consciência daquela forma, mas nunca tinha visto outras consciências presas a uma só como daquela vez. Era realmente o caso mais extraordinário que já havia presenciado.
Continuou a andar pela pequena casa, avistou o que parecia ser o quarto. Uma portinha de madeira com o trinco fechado pelo lado de fora. Ela puxou o trinco e ouviu um grito. Dessa vez se assustou.
- Quem está aí? Menininha… é você?
- Não entre! Não entre…
- Quero te ajudar… preciso entrar…
- Não pode me ajudar… e eu estou horrível…não quero que ninguém me veja assim…
Marie então voltou a fechar o trinco, sentou-se, as costas apoiadas na porta. A Larva não se revelava agressiva afinal.
- Me chamo Marie Lilly… e você?
-… Ana…
- Que lindo nome… Ana… quantos anos você tem?
- Não lembro… não sei quanto tempo estou aqui… eu não sei mais nem o que é tempo…
- Porque não sai desse quarto, Ana?
- tenho medo…
- Medo de que?
- Do meu Amor….
- Ele te machucou?
- Não!! – gritou ela, a voz chorosa – eles machucaram ele… mataram ele…por culpa minha…e tenho medo de ver o que fizeram com ele…
- Então você não saiu mais desse quarto…
- Sim… não tive coragem..não tive mais animo…
- Não comeu, não bebeu….
- Não…
- Você se matou Ana…
- Não me importo! Bem feito pra eles… se eu não posso ter meu amor, eles não vão me ter também…ele… ele me dizia que estava me esperando…que eu era como uma borboleta dentro de um casulo… uma larva…
- Uma larva que nunca pode nascer…
Era como Marie havia imaginado. A Larva era uma metáfora.
- Por que atormenta a menina Lilian?
- Não sei quem ela é… mas ela tem o sangue da dona Maria Velha… que prometeu ficar do meu lado mas me esqueceu…eu vou aonde o sangue dela estiver… eu o sigo… elas não podem me esquecer…mas elas não me ouvem mais…
- Ana você a assusta demais…
- Não faço por mal… mas estou horrível… não me culpe…não me culpe…
- Me deixe entrar Ana – disse Marie levantando-se – deixe-me tocar-te, posso te ajudar, te acalmar…
- Não!! Não quero que me veja assim!
- Por favor… deixe que eu te ajude.
Marie não obtinha mais resposta. Então resolveu entrar no quarto. Abriu a porta devagar, lá dentro, um cheiro ácrido forte, quase insuportável dominava o ar, pode ver a cadeira onde Ana estava sentada, a cabeça pendia para trás, os braços ao lado do corpo. Estava morta. Marie se aproximou e observou horrorizada, o rostinho ressecado da menina, os olhos fundos, negros como a noite… a boca aberta como se gritasse… e dentro de sua boca, havia um ninho de vespas pequenas e negras, que alocaram-se ali após sua morte.
Marie virou o olhar, contendo uma ânsia de vomito, levou ambas as mãos a boca e gritou:
- Chega!!
Lilian sacudia o Corpo de Marie freneticamente, chorando muito, parecia querer gritar mas não conseguia. Marie voltava a si devagar. Ainda tonta… avistou Lilian e ao fundo, agachada num canto o espectro azulado de Ana.
- Ela…ela esta ali…ela esta ali ela não quer ir embora Marie….
- Acalme-se Lilian… ela não vai nos fazer mal…
Marie levantou-se, aproximou-se devagar de Ana, agachou-se ao seu lado e começou a declamar baixinho o poema que Dona Maria havia lhe mostrado:
“Estou aqui, só como sempre estive.
E tudo o que posso ouvir, daqui até o amanhecer é o silêncio.
O sol é tudo o que eu quero. A brisa, o que eu espero.
Cheiro do orvalho e o calor do teu toque
Todas tuas notas, o amanhecer ao piano.
Até o sol se por.”
Tocou de leve o ombro da menina, que virou seu rosto para Marie. Não havia mais a pele ressecada e pálida de outrora, nem seus dentes corroídos, nem as vespas que fizeram morada em sue corpo. Sua face era rosada, os olhinhos pretos brilhavam com a poça de lagrimas que se formava.
- Não precisa ter medo, Ana – disse Marie enquanto a abraçava – elas não te esqueceram… elas guardaram seu poema… você se lembra dele?
- Sim…sim….pobre dona Maria Velha… eu a julguei mal…
Ana então abraçou Marie de maneira tenra.
- Teu calor…é tão….confortável…
A Menina adormecia. Marie sentia como se toda a preocupação de dois séculos caíssem dos ombros da menina. Devagar, sua imagem foi desfazendo-se, em pequenos grãos de areia bem finos. Que se perderam por entre os vãos do piso de madeira.
Lilian se aproximava de Marie.
- Está feito Lilian. Ela está em paz agora.
- Tem…tem certeza senhorita Marie?
- Sim.
Lilian correu para o quarto de sua mãe, muito feliz, anunciou que havia enfim se livrado de seu tormento.
Marie abraçou o próprio corpo, ainda sentada no chão frio daquele pequeno quarto. As imagens do corpo da menina, que morrera a míngua num velho quarto de barro, por conta de seu amor, não lhe deixavam a mente.
Nenhum caso fora tão significativo para ela como esse.
Levemente baseados em um “caso real”.
Esse texto não segue nenhum fundamento religioso. Todas as idéias e teorias partiram de minha mente.
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